O número de bancos digitais no Brasil cresceu em ritmo acelerado, conquistando o mercado consumidor, pois agora dá para abrir uma conta pela internet com poucos dados e documentos, sem tarifas e burocracias. Dados de uma pesquisa denominada “A revolução dos bancos digitais 2020” demonstram que, entre 2017 e 2018, o aumento foi de 147% e, com a pandemia, os bancos digitais ultrapassaram, pela primeira vez no país, os bancos tradicionais em números de downloads.

Esse crescimento leva, via de consequência, a um também aumento do número de contratações, pois necessitam de profissionais para atendimento desta elevada demanda.

Porém, as contratações dos bancários, assim como os serviços ofertados pelos bancos digitais comparados aos tradicionais, mudou muito. Basta uma busca informal no perfil das vagas digitais para notar a diferença. Passou-se a exigir experiência em banco de dados, “business development”, “customer relations”, “governança on cloud” e as vagas anteriormente denominadas para “caixa”, “analista de produto ou processo”, “gerente de conta ou de relacionamento”, agora são para contratação de “Tech Manager”, “Analista de mídias sociais”, “Consultor de segurança da Informação”, “Growth Hacker”, “Analista de Mesa de Investimentos”; isto para as vagas em português, porque já há vagas redigidas integralmente em inglês para a contratação de “Senior Business Developer”, “L&D Manager, Implementation & Optimization”, “Controllership Analyst (Credit)”, dentre outras, para ficarmos em poucos exemplos.

É um ótimo sinal para novos perfis profissionais. Como o inglês é praticamente mandatório, pois muitos destes bancos realizam atividades internacionais, com filiais em várias partes do mundo e negociações na indústria financeira mundial, abriu-se um leque de oportunidades para colaboradores jovens, de diferentes nacionalidades e perfis engajados. Essas fintechs também costumam ter maior flexibilidade de jornada, vestimenta, pausas para maior interação entre os colegas e querem atingir um público consumidor moderno e atento a tecnologia, quebrando assim a seriedade comum ao mercado financeiro.

Em contrapartida, é um mercado excludente. Como bem se sabe, os bancos tradicionais praticamente estão extinguindo a figura do “caixa bancário”. Esse profissional não consegue uma das novas vagas oferecidas pelo mercado digital, em que pese ter vasto conhecimento do setor. Ele não fala inglês, não costuma ser descolado, mas habituado a jornada fixa de labor, posto de trabalho, tarefas determinadas e cumprimento de metas. Tem idade superior ao perfil contratado, fez os cursos tradicionais exigidos “em seu tempo”, que certamente não foi em “mídias sociais”, “master business”, tampouco “desenvolvimento de sistemas e banco de dados”, com forte tendência a administração, economia ou contábil.

Mais: esses novos bancos não têm tempo nem interesse em treinar, tem pressa! Assim, o profissional deve vir pronto: trabalhar conosco exige inglês fluente, CPA10, CPA20, CEA, CFP PQO de Operações, CA6000, Excel avançado e preferencialmente faculdade de Engenharia de Produção (exigências das vagas por amostragem).

Assim, além de não reinserir no mercado os profissionais bancários que estão deixando os bancos tradicionais, também não contratam minorias, pois uma grande massa de jovens não tem condições de se qualificar à altura das exigências das vagas, mantendo-os em condições sociais precárias e subutilizados, retroalimentando um conhecido sistema “onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre”.

Portanto, enquanto as empresas – destacando-se os bancos – não entender que, além dos lucros, há uma premente necessidade de entender que os valores morais da empresa têm que ser compatíveis com os da sociedade no qual está inserida, somente “Senior Business Developer” sobreviverão no mercado financeiro.

É correta a oferta de vaga, mas é ética e inclusiva? Reflitam.

Janaina Ramon é advogada trabalhista e sócia de Crivelli Advogados

 

*Texto publicado originalmente na revista Conceito Jurídico