Por Thomas M. Hanna / Tradução livre: Daniel S. M. Fabre

Em meados de setembro, uma festa secreta está agendada em Londres. Os participantes serão centenas de alunos do extinto banco de investimento global Lehman Brothers. A ocasião? O aniversário de dez anos da falência do banco em meio à Grande Crise Financeira.

Para muitos norte-americanos, a visão daqueles mesmos banqueiros andando pelas ruas de Nova Iorque em 2008, com caixas de papelão contendo seus pertences e o choque em seus olhares, foi o primeiro sinal de que algo estava verdadeiramente ruim.

Mas o subsequente resgate com dinheiro público das gigantes corporações financeiras norte-americanas e do “1%” demonstrou quão incapaz e desinteressada era a liderança política nacional para entender o equívoco de fundamentalmente remodelar a indústria responsável em primeiro lugar pela crise. Uma década depois, ainda estamos experimentando as ramificações políticas, econômicas e sociais daquela falha.

Haverá outra crise financeira. Isso é bastante certo. Apenas quando e quão destrutiva será é que está em debate. A indústria financeira está mais consolidada do que estava em 2007 – dominada por bancos ainda grandes demais para falir. Lobistas de bancos e seus aliados parlamentares sistematicamente minaram as fracas reformas regulatórias que se iniciaram após a crise, demonstrando novamente que o tremendo poder político e econômico dessas instituições financeiras faz com que reformas regulatórias e institucionais (tal como a chamada “rompendo com os bancos[1]”) sejam improváveis, se não impossíveis.

Essas realidades fazem com que, quando a próxima crise chegar, o setor público novamente seja chamado para resgatar Wall Street. Nós precisamos começar seriamente a preparar uma resposta alternativa. Uma opção é apoiar uma legislação que requereria uma participação pública, com amplos direitos de voto, em qualquer instituição financeira que tenha que ser resgatada devido a suas próprias atividades fraudulentas ou especulativas.

A participação pública em bancos não é tão maluca quanto pode soar. Ela foi a resposta política padrão para crises financeiras ao redor do globo por décadas – incluindo os Estados Unidos dez anos atrás quando o governo tomou posições de participação com controle acionário na Fannie Mae, Freddie Mac, Citigroup, e GMAC, provendo injeções de capital para mais de 700 bancos.

Quase todos os comentaristas que apoiaram esses resgates financeiros e nacionalizações de curto-prazo rejeitaram enfaticamente a participação pública de longo-prazo. Tais julgamentos precários, entretanto, ignoram deliberadamente a experiência, extensiva e usualmente bem-sucedida, de bancos públicos tanto nos Estados Unidos como ao redor do mundo.

Por toda Europa, mais de 200 bancos públicos e semi-públicos são responsáveis por praticamente um quinto de todos os ativos bancários. Na Alemanha, o Sparkassen, uma rede de quase 400 bancos públicos municipais, “ [atravessaram] a crise com quase nenhum arranhão”, de acordo com o The Economist, diferentemente de alguns dos maiores bancos privados do país. O Banco de Dakota do norte de quase 100 anos de idade, que tem cerca de US$ 7 bilhões em ativos e um portfólio de empréstimos de US$ 4,9 bilhões, é amplamente reconhecido por ter ajudado o estado a atravessar a crise de 2008 com a menor taxa de execução hipotecária e de credito do país, e sem nenhuma falência em mais de uma década. O banco fez empréstimos enquanto os bancos privados estavam congelando o crédito, isso ao mesmo tempo em que continuavam a contribuir com as receitas do orçamento do estado.

Antes da crise financeira, a economia neoliberal e as políticas públicas consideravam bancos públicos como uma relíquia do passado, a sabedoria prevalecente era de que eles eram inerentemente menos eficientes do que os bancos privados. Entretanto, as pesquisas disponíveis não apoiam universalmente está “sabedoria”. Por exemplo, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico - OCDE, em um relatório de 2014 sobre bancos públicos alemães, concluiu que “bancos de depósitos parecem ser ao menos tão eficientes quando os bancos comerciais”. De forma similar, pesquisadores no Reino Unido descobriram  em 2010 que “a noção de que os governos [não podem] dirigir bancos efetivamente” não era “bem embasada” e “em todo caso, a participação de governos em bancos foi associada, na média, com maiores índices de crescimento”.

Além disso, a crise financeira tornou excessivamente difícil até mesmo para os firmes neoliberais argumentar que bancos privados são mais eficientes quando suas atividades quase colapsaram a economia capitalista global inteira, requereram ajuda massiva do governo, e causaram enorme sofrimento humano.

Se propriamente estruturada, a mera ameaça de participação publica poderia servir como um poderoso desincentivo para gestores e donos de corporações financeiras em se engajarem em práticas negociais arriscadas, especulativas e fraudulentas. Se tais tomadas públicas ocorressem na realidade, as novas entidades poderiam ser restruturadas para se focarem no benefício social e em prol da prosperidade ampla de toda economia – por exemplo, financiando energia renovável e uma transição verde, auxiliando a compra dos negócios pelos trabalhadores, ou reconstruindo infraestrutura local precária. Elas poderiam ser mais transparentes e responsáveis democraticamente. E elas poderiam ajudar a reverter a crescente desigualdade social, mantendo em cheque os pagamento e compensações de executivos.

Além disso, a participação pública nos maiores bancos de Wall Street seria um elogio ao crescente movimento por banco públicos locais e estaduais ao redor do país, e para um sistema financeiro mais localizado e descentralizado no geral. Da mesma foram que o Banco de Dakota do Norte apoia bancos da comunidade local, grandes bancos públicos poderiam se associar com os bancos locais para apoiar uma ampla gama de serviços. Para aqueles que querem um sistema financeiro muito mais descentralizado, tal plano não pode impede romper com os bancos. De fato, isso é praticamente um pré-requisito. Em uma situação de crise, com bancos à beira da falência, simplesmente quebra-los não é uma opção. Primeiro, eles precisam ser salvos, o que necessitaria tanto um resgate como uma participação pública.

Pesquisas de opinião tem repetidamente mostrado que a sólida maioria dos norte-americanos ao redor do espectro político odeiam resgates a bancos e que, de fato, eles apoiariam antes alguma forma de participação pública. Durante a próxima crise financeira, este sentimento provavelmente seria intensificado – e poderia ser impulsionado para uma mudança sistêmica se estivéssemos prontos com uma visão coerente de um plano desenvolvido, comprovado e viável.

A próxima crise será a oportunidade de a esquerda demandar um novo sistema financeiro - e nós precisamos desenvolver esta visão hoje para que estejamos aptos a lutar por isso amanhã. O futuro dos bancos é muito importante para ser deixado para os banqueiros.

          

Fonte: http://inthesetimes.com/working/entry/21422/financial_crisis_public_banks_le

 

[1] “Breaking up the banks”