Por Lucas Bulgarelli.

Hoje, 8 de outubro, se comemora o dia do Nordestino. A data foi instituída primeiramente em São Paulo, no ano de 2009, por meio da Lei 14.952. Trata-se de homenagem ao centenário do nascimento de Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, poeta, compositor e cantor popular, natural do Ceará.

Patativa do Assaré (1909-2002) está entre as principais figuras nordestinas do século passado. Viveu na cidade de Assaré, no estado do Ceará, com sua família formada por pequenos trabalhadores rurais e desde os oito anos já ajudava na plantação. Antônio Gonçalves da Silva estudou por poucos meses e foi alfabetizado aos doze anos e nesse período começou a criar repentes. Anos mais tarde recebeu o codinome Patativa, pássaro da região. Escreveu o primeiro livro de poemas, “Inspiração Nordestina” em 1956 e, a partir do reconhecimento nacional, ganhou inúmeros prêmios. Mesmo famoso, citado e reverenciado em produções acadêmicas e artísticas, nunca deixou a região do Cariri, interior cearense.

Não há coincidência alguma no fato desta data comemorativa ter sido criada em São Paulo. Afinal, a cidade é, desde o início do grande êxodo urbano iniciado nos anos 1950 e 1960, o lugar onde se concentra o maior número de nordestinos de todo o Brasil que vivem fora do Nordeste. Até os dias atuais o estado é o principal destino de migrantes vindos da região Nordeste, 5,6 milhões em 2015, 12,66%  a população do estado, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE.

Segundo o livro de Paulo Fontes, “Um nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista” (2008) com a intensificação desse fluxo migratório para a cidade, de todos os estados da região Nordeste, ainda nos anos 1970, as categorias genéricas “do Norte”, “do Nordeste” ou “nordestino” foram mobilizadas para se referir a pessoas de diferentes lugares, origens e vivências. Ao chegarem em São Paulo, no entanto, eram denominas de "baianos" e todas as diferenças e singularidades entre as pessoas vindas da região nordeste eram postas em suspensão. Chamá-los de "baiano", para Paulo Fontes, tinha implicações culturais e étnicas que objetivavam, principalmente, marcar a diferença de quem chegava na cidade em relação aos moradores estabelecidos. O autor aponta que migração nordestina cruzava dois elementos centrais, como raça e pouca escolaridade formal. Motivos que serviram de argumento para que os nordestinos fossem responsabilizados pelas mazelas do crescimento urbano desordenado em São Paulo, pelo sucateamento dos serviços públicos, pela escalada da criminalidade e crescimento de cortiços e das favelas.

Ao mesmo tempo que esses migrantes se deparavam com segregação na geografia e na sociedade urbana, criaram inúmeras redes de solidariedade, de acionamento de contatos, de comércio e circulação de pessoas, de dinheiro e produtos. O que demonstra o oposto da desorganização e irracionalidade implicada na migração nordestina.

Essas redes, por exemplo, alimentavam e ainda alimentam as relações de vizinhança em alguns bairros, como Jardim Ângela e Grajaú, na Zona Sul, ou a Vila Brasilândia, na zona noroeste da cidade. Também alcançaram o interior das fábricas, onde muitos trabalhavam, até chegar de maneira firme e efervescente na formação de sindicatos e composição de alguns partidos políticos.

As construções de redes de apoio (vizinhança e trabalho), bem como de organização política, foram fundamentais para elaborar uma identificação específica de trabalhador nordestino na cidade, uma espécie de “identidade de classe”, diz Paulo Pontes, não necessariamente uma comunidade fixa e centralizada.

De qualquer modo, o dia do nordestino é um maneira possível de combater o preconceito vivenciado historicamente por essa população nos diversos domínios da sociedade de acolhida, além de contribuir para o reconhecimento e orgulho das diferentes expressões culturais e os saberes trazidos por essa parcela da população. Desde 2009 a data é bastante comemorada nos inúmeros Centros de Tradições Nordestinas em São Paulo, entidades que contam e preservam as trajetórias dessas pessoas na capital. Provavelmente hoje não será diferente!