Pequena elegia a meu pai - Chico de Oliveira - escrito no avião à caminho da despedida  - *por Francisco José Couceiro de Oliveira, o filho. 

 

Se foi "Il Vecchio"....

Não sei como começar, nem dá pra ser exaustivo, tamanha a importância e riqueza de vida deste que se foi...

Mas vou começar pelo Ceará, onde atualmente me encontro, e foi por lá que talvez ele tenha começado os primeiros traços da tentativa de entender e contribuir com o conhecimento sobre o Nordeste. Não deixei de ouvir mesmo nos tempos sombrios de hoje alguém que o lembrava no ETENE, uma superintendência de estudos do BNB. Daqui do Ceará ele dizia, é um povo acolhedor e generoso, e realmente confirmei sua afirmação, e também dizia, foi lá que tive minha primeira filha...

Depois em Pernambuco novamente, nos inícios dos estudos sobre uma proposta para o desenvolvimento do Nordeste, primeiro no antigo órgão que precedeu o Condepe e posteriormente na Sudene, começou a imprimir suas idéias em folhas e em mentes, acompanhado de grandes amigos como Celso Furtado, nosso padrinho Jáder de Andrade, e muitos outros que se formaram naquele fértil ambiente político e intelectual.

Em 64 o exílio forçado, a saída arrancando raízes, mas marcando definitivamente a escolha de todos nós da família, para o bem e para o mal....

Nordestino e nordesterrado, como falava, pela forçosa ausência do exílio, não hesitou em voltar logo que a primeira brecha se abriu.

E foi 68, imaginem! Uma armadilha! Caíram os processos e ele, não pensem que ingenuamente, decidiu trazer junto com ele a família que já padecia da falta das raízes, principalmente minha mãe que arrancada da sua terra, agravava seu quadro de doença...

Foi escolha para tentar recompor uma família que poderia se destroçar, mesmo arriscando sua própria integridade física!

A luta não esmoecia, por isso a mudança para sua segunda terra, a mesma de tantos nordestinos, São Paulo! Os que estavam em Recife, parentes que o protegeram no golpe, disseram, desta vez nem eu consigo te proteger, vai pra outro lugar!

Em São Paulo protegido por amigos e companheiros, conseguimos nos acomodar! Força de expressão......ele nunca....

A indignação na grande metrópole, agregada ao preconceito com o nordestino, parece que fez  despertar seu momento mais vivo e tenaz de produção intelectual, política e de luta. Nossa casa, que às vezes escapava de tentativas de intimidações desses tempos difíceis da ditadura, me lembro de pedras jogadas nas janelas com mensagens ameaçadoras, nunca deixou de ser uma espécie de berço de jornais "alternativos" e grupos de discussão política.

Convivíamos com isso, com a retaguarda da minha mãe, mesmo doente, e com a ajuda incomensurável da minha vó Babai e dos nossos trabalhadores da nossa casa, nordestinos amigos, como nós!

Sempre tivemos sorte, contamos com verdadeiros amigos que nos cuidavam.

Os laços com o Nordeste só se fortaleciam!

Em 74, talvez um dos tempos mais raivosos do regime militar, "Il Vecchio" caiu de novo! Foi visitar um amigo, que tinha sumido, na sua casa, e foi pego. Também não pensem que era ingenuidade, ele no fundo sabia que estavam esperando, mas não podia deixar de saber do amigo, não podia deixar de lhe prestar solidariedade.  Preso durante um tempo, para nós uma infinidade, foi torturado por Sérgio Paranhos Fleury ( hoje há quem cultue este tipo de besta) mas voltou íntegro, e depois de um tempo de recuperação, voltou com todo gás a luta, escrevendo, falando, se reunindo e divulgando por todos os meios seus ideais socialistas.

Ajudou a fundar partidos, ajudou a formar gente, ajudou a luta dos trabalhadores.....ajudou, ajudou, ajudou....

Em São Paulo constitui sua segunda família depois da morte de minha mãe.

Cometeu desaforos aos paulistanos quando por indicação de um amigo parlamentar recebeu o título de cidadão paulistano. Foi na USP, onde o recebeu, que ao falar fez menção a que finalmente São Paulo teve que reconhecer um nordestino. Mas todos já sabíamos que era uma espécie de desabafo de outros tempos, na verdade  São Paulo já  era sua segunda casa. Repetia, se sair daqui levo um pouco da fumaça de São Paulo numa garrafa...

Não se intimidava com nada, ao contrário, toda provocação o desafiava a pensar e tentar construir conhecimento e desafios teóricos.

Generoso, inclusive intelectualmente, coisa rara, imprimia sua marca de intelectual radical na verdadeira acepção da palavra e talvez por isso, incompreendido pelos pragmatismos da política. Mas quem o entendia e conhecia, sabia...

Uma vez me lembro que em uma das discussões políticas acaloradas que tínhamos, ele me disse, "Mano", era assim que me chamava, "eu não posso deixar de falar isso, eu sou um intelectual e é meu papel conservar a radicalidade, o pragmatismo da política já faz muitas concessões".

É isso, um homem íntegro, sem concessões, sem desviar por atalhos talvez mais fáceis...

A luta pelo socialismo e pela humanidade acima de tudo.

Nós filhos e família conhecemos, como muitos dos seus amigos, esse lado.

Absolutamente condizente com seu lado generoso, alegre, carinhoso, amoroso, solidário, e comprometido com o povo e com os trabalhadores!

Deixou-nos, a nós da família e a todos que se agregaram a ela ao longo do nosso tempo, um legado incomensurável, uma verdadeira marca que nos fará companhia em todas as nossas vidas!

O Brasil certamente perdeu um de seus maiores pensadores!

Que orgulho tê-lo como pai! Não tenho problema nenhum em dizê-lo!

Vai "Il Vecchio"....

Vai ser gauche...na eternidade!

Nós que aqui estamos, por vos continuaremos...

À luta!

 

Francisco José Couceiro de Oliveira.